Friday, April 21, 2006


DA COMIDA PORTUGUESA...
(Como deveria ter sido na Agrela, se a minha família não fosse tão peculiar... um "pequeno" execício de escrita!!)

Tudo começa com um bom refugado. Na cozinha, a cebola a estala no azeite, o alho tosta na sertã, o raminho de cheiros espalha o seu perfume pela casa e já se adivinham na boca os sabores repetidos vezes incontáveis, desde o tempo dos nossos igréjios avós. O borrego está a guardar na sua carne tenra de cria alimentada a ar do campo e relva orvalhada, as memórias do tempero da vinha d'alhos há já duas luas. E chegou a sua hora. Do recipiente de barro, marinado de tantas marinadas, o cordeiro salta pela última vez. A sua carne aloura na mistura simples mas tão genuina, como a alma do povo que a inventou, virada com os cuidados experientes da anciã cuja mão já está de tal modo treinada que poderia fazê-lo de olhos vendados. Aprendeu os truques com a sua mãe, que aprendeu da sua, numa passagem de testemunho solene e informal de uma vida passada entre os cheiros e as magias dos tachos. A família está reunida na cozinha à boa moda portuguesa, como uma sinfonia afinadíssima. A comida é como nós, precisa de companhia, de dedicação, da música de vozes familiares para revelar os verdadeiros mistérios. A filha descasca as batitinhas novas com minúcia de joelheiro. É preciso que estejam prontas a tempo, para não fazer esperar a carne. O velho forno a lenha lá fora no jardim já está a ser alimentado pelos toros de azinheira e galhos de eucalipto. A pequena tem nos olhos o brilho da primeira tarefa no almoço de Páscoa e cumpre-a com a responsabilidade da confiança depositada. Traz o tabuleiro de barro, aquele que está guardado na prateleira mais alta do armário da cozinha, aquele que já tem na pele as rugas de anos de trabalho. A cor da carne passou de vinho tinto para castanho terra. Está no ponto. Um fio do azeite que ganhou o aroma dos barris de carvalho em que foi guardado deste o remoto dia da apanha da azeitona, faz o leito do borrego tostado. A carne no centro, as batatas à volta, o refugado por cima de tudo, dispostos com a precisão do artista que dá a última pincelada na sua obra de arte. As brasas estão prontas para abraçar mais uma vez o tabuleiro composto, a porta do forno fecha-se. O sol faz girar os ponteiros do relógio no jardim e ainda há tanto para fazer. Os bagos de arroz começam a ganhar a cor do refugado e não tarda estará pronto para se juntar à carne enquanto se partem cuidadosamente os muitos ovos. Gemas para o pudim, claras para o merengue. Há quem tire a hortelã que vem a cima na cozedura do arroz, mas diz-se na terra que é em mantê-lo que está o segredo do verdadeiro arroz de forno. Rodelas de chouriço, que está no fumeiro desde o Outono são postas de forma a que os sumos que o calor vai fazer escorrer se espalhem por todos os recantos do arroz. O tempo no forno é exactamente o suficiente para acabar as sobremesas.
E quando o sino da igreja da aldeia toca as doze baladas, a rolha salta de uma garrafa de verde tinto, ao grau certo para regar este manjar de celebração. Já está cá fora a grande mesa da cozinha que os homens trouxeram para o jardim, os pratos, os talheres e os copos no lugar certo. A toalha de linho mal se vê por debaixos dos muitos acepipes, azeitonas com azeite, alho e oregãos, saladinha de polvo com um generoso molho de coentros e cebola, quadradinho de queijo de cabra em azeite, espinafres salteados, Rápido, é preciso que se arranje espaço para o tabuleiro da carne e do arroz. As batatinhas ficaram tão douradas no forno que a talha da Igreja parece não ter brilho. Todos correm a ocupar o seu lugar nesta mesa capaz de fazer salivar o mais despojado dos ermitas. O tempo está suspendo. E quando a colher de metal quebra finalmente as ondas estaladiças da capa do arroz de forno e os pratos começar a rodar pela mesa, os ponteiros voltam a rodar no relógio.

7 comments:

Anonymous said...

"Todos correm a ocupar o seu lugar nesta mesa capaz de fazer salivar o mais despojado dos ermitas."

Imagina quem leu!

*

L. said...

hoje o jantar foi pasta com molho de tomate (daqueles que vêm em frasco)...

odeio-te!!

***

mary said...

está tão giro! dá é muita fome.. ;)

Anonymous said...

De facto este post até nos põe a salivar! Desafio-te para uma jantarada ou almoçarada destas (mesmo que tenha que ser eu a cozinhar! Muitos beijinhos com muito carinho Mãe

pat said...

hiper-descritivo. deu mesmo para entrar na almoçarada. pena serem cada vez mais raras e termos que enfiar uma bucha e um refrigerante pela goela, a correr, todos os dias.
:*

L. said...

eh pah...

ja postavas/mandavas mail

kiss kiss bang bang

leila

***

Anonymous said...

FRANGO COM BAGUINHAS VERMELHAS